segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A SAÚDE COMO CAMPO CIENTÍFICO: ALGUMAS QUESTÕES PRELIMINARES


Até onde temos notícia, é original a proposta apresentada no texto de analisar o campo da Saúde Coletiva como, simultaneamente, campo científico (disciplinar) de aplicação tecnológica e de práticas. Contudo, partindo da definição de campo, e, em especial, do campo científico, tal como proposta por Bourdieu, nos parece que é possível ampliar a discussão e conceber o campo da Saúde enquanto campo de disputas entre diversos campos científicos como: a Biologia, Antropologia, Sociologia,..., além da própria Saúde Coletiva. 

Nessa perspectiva, seria conveniente analisar:
  • ·     Quais as relações existentes entre os diversos campos científicos que têm a saúde como objeto e de que modo estas relações estruturam o campo científico da Saúde?
  • ·     Quais as estratégias utilizadas pelos diferentes agentes?
  • ·     Quem se constitui no polo dominante e no polo dominado ao longo do desenvolvimento histórico do campo?
Conforme nos assinala Bourdieu, a estrutura do campo, ou seja, a repartição do capital específico entre os membros de uma dada comunidade científica exerce uma influência determinante sobre as escolhas e opções de seus membros. Nesse sentido, “O campo científico é sempre o lugar de uma luta, mais ou menos desigual, entre agentes desigualmente dotados de capital científico e, portanto, desigualmente capazes de se apropriarem do produto do trabalho científico que o conjunto dos concorrentes produz pela sua colaboração objetiva ao colocarem em ação o conjunto dos meios de produção científica disponíveis”. (Bourdieu: 136).

Portanto, a ordem científica estabelecida supõe a existência de dominantes (aqueles que detêm maior quantidade de capital científico acumulado no campo) e os dominados, isto é, os pretendentes ou novatos (os quais se diferenciam entre si pela relevância do capital científico acumulado até então). Daí que os interesses e as estratégias adotadas por cada um deles decorrem, fundamentalmente, da posição que ocupam no campo. Nesse sentido, seria possível diferenciar entre estratégias de conservação, de sucessão e de subversão

As estratégias de conservação seriam desenvolvidas pelos dominantes com a finalidade precípua de manutenção da ordem científica estabelecida da qual se beneficiam ao ocuparem as posições hierárquicas mais elevadas. As estratégias de sucessão adotadas pelos iniciantes seriam “... próprias para lhes assegurar, ao término de uma carreira previsível, os lucros prometidos aos que realizam o ideal oficial da excelência científica pelo preço de inovações circunscritas aos limites autorizados”. (Bourdieu: 138). Já as estratégias de subversão visariam o questionamento dos princípios de legitimidade científica vigentes, propondo uma alternativa que se oporia de maneira irreconciliável à ordem científica instaurada. Esta opção implicaria num desprezo ao “ciclo das trocas de reconhecimento que assegura a transmissão regularizada da autoridade científica entre os detentores e os pretendentes” (Bourdieu: 139), e consequentemente, num investimento na aquisição de capital científico significativamente mais elevado, e com expectativa de retorno deste investimento num prazo consideravelmente maior, pois requereriam, nas palavras de Bourdieu, “vencer os dominantes em seu próprio jogo”. (Bourdieu: 138).

“Portanto, diversamente de Kuhn, que vê a manutenção e a ruptura com o paradigma vigente como respostas ao processo de pesquisa normal, Bourdieu encara a manutenção, o consenso e a ruptura como parte da estratégia dos agentes na busca de crédito científico. Normas, valores, consenso e recompensas não são as causas da atividade social, mas os resultados desta atividade, que existe através das estratégias adotadas pelos investidores na busca de maximização de capital simbólico. Todos querem maximizar os lucros, obter, acumular e manter o seu capital científico, a autoridade/competência científica reconhecida” (Portocarrero, 1994).

Marcelo Dourado
Doutorando do PPGSC
Instituo de Saúde Coletiva-UFBA


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOURDIEU, P. O campo científico. In: Ortiz, R. org. Pierre Bourdieu. São Paulo, Ática, 1983.Cap.4.p.122-55. (Coletânea Grandes Cientistas Sociais, 39).

PORTOCARRERO, V. (org.) 1994. Filosofia, história e sociologia das ciências I: abordagens contemporâneas. Editora Fiocruz, Rio de Janeiro. 272 p.


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Saúde: campo de saberes, práticas e ação tecnológica

 
                                                                                    
O termo campo da saúde implica distintos conceitos de campo; é um campo disciplinar e um âmbito de práticas sociais estruturados por conceitos de saúde e doença, abrigo de grande diversidade de saberes, técnicas e práticas. A saúde é um campo que recorta o campo das ciências; é um campo de saberes, prática e ações tecnológicas que beiram as relações de humanidade. O que pode ser melhor entendido, considerando-se campo de ação tecnológica o espaço de aplicação organizada de instrumentos e técnicas, e campo de práticas sociais o espaço de aplicação socialmente organizada de saberes e práticas.

O campo da Saúde coletiva, espaço social que, vale ressaltar, não recobre totalmente o campo da saúde, exemplifica essa agregação de aportes de outros campos: como ação tecnológica temos a Atenção à saúde individual e a Saúde ambiental; como prática social temos as políticas públicas e a educação e comunicação; e como disciplinares temos a matemática/estatística (epidemiologia) e as ciências humanas e sociais. 
 
Para compreensão do complexo 'saúde-doença-cuidado' a Saúde Coletiva propõe a superação da disciplinaridade do referencial cartesiano: "conhecer é fragmentar, acumular e depois somar elementos, cada vez mais profusos e numerosos" (ALMEIDA FILHO, TEIXEIRA, VASCONCELOS), já que os integrais de saúde-enfermidade-cuidado, inerentemente complexos não são capazes de serem apreendidos por campos científicos disciplinares. Ao invés disso, a sua compreensão deve ser possibilitada por uma lógica múltipla e plural, por 'operadores transdiciplinares da ciência' em etapas cíclicas de formação, de 'treinamento-socialização-enculturação' em distintos campos do saber (JOÃO MARCOS, post 2).
 
                                                                                Mariana de Almeida Moraes
O CAMPO DA SAÚDE - Outras reflexões

Reconfigurar o objeto ‘saúde’ como campo de saberes e práticas reconhecendo sua complexidade. Para Paim & Almeida-Filho (1998) esta é uma oportunidade para conceber o complexo ‘saúde-doença-cuidado’ numa nova perspectiva paradigmática. Isso implica a construção de um marco teórico-conceitual capaz de reconfigurar o campo social da saúde, atualizando-o face às evidências de esgotamento e crise do paradigma científico que sustenta as práticas de saúde pública.
Este blog propõe a reflexão da saúde nas duas vertentes que trata o texto de Paim & Almeida-Filho (primeiro post): a respeito da natureza e propriedades do conceito de Saúde enquanto objeto de conhecimento, canalizando o campo de saberes, e a respeito do sentido e lugar das práticas de saúde (pessoais, institucionais e sociais) canalizando a o campo de práticas.
Através deste debate conceitual da saúde como campo de saberes e práticas, o texto apresenta algumas diferenciações semânticas ou conceituais dos termos paradigma e campo, já que são algumas vezes utilizados com significância relativamente equivalentes, mas que, para criticidade dos debates a respeito de tema saúde, devem ter refletidas. Para quem se interessar em conhecer estes debates conceituais sugerimos a leitura do primeiro e segundo post. Mas apenas para constar, as ideias apresentadas no texto a respeito de que “as palavras/nomes tem o sentido do objeto e dar sentido ao objeto que nomeia” parece justificar, para nós, a importância de conhecer o universo de significantes para o universo de termos utilizados, a exemplo de campo e paradigma.
Reafirmamos como Paim & Almeida Filho (1998) que a oportunidade para conceber o complexo “saúde-doença-cuidado” em uma nova perspectiva paradigmática, mediante políticas públicas saudáveis e participação da sociedade nas questões de saúde, condições e estilos de vida, implica a “necessidade de construção de um marco teórico-conceitual capaz de reconfigurar o campo social da saúde, atualizando-o face às evidências de esgotamento do paradigma científico que sustenta as suas práticas”.
                                                                                                                     Sabiny Pedreira

                                                                        

domingo, 4 de dezembro de 2011

REFLEXÕES SOBRE O CAMPO DA SAÚDE.


O processo de produção social do objeto saúde-enfermidade-cuidado, em suas dimensões individual/coletivo, se configura de modo totalizado, complexo e contextualizado, fonte de múltiplos discursos e que extravasa os recortes disciplinares da ciência (ALMEIDA-FILHO, 2006). O reconhecimento dos integrais de saúde-enfermidade-cuidado, segundo uma lógica múltipla e plural, que não se expressa de uma maneira codificada, pode ser, no âmbito da produção do conhecimento, um dos primeiros passos que possibilitará a compreensão de sua complexidade.
Destarte, o trabalho teórico-epistemológico empreendido pela Saúde Coletiva no contexto das sociedades contemporâneas latino-americanas aponta um ‘campo interdisciplinar’ aberto a novos paradigmas (PAIM & ALMEIDA-FILHO, 1998). A partir destes referenciais, poderemos refletir, brevemente, no âmbito praxiológico os conceitos de campo científico (BOURDIEU, 1983) e de paradigma (KUHN, 1970).
Thomas Kuhn desenvolveu o termo paradigma como abordagem crítica histórica, na vertente da teoria da filosofia da ciência, para tentar explicar a estrutura das revoluções científicas, mais especificamente, a construção dos conhecimentos da física. O núcleo dos problemas criados e resolvidos por modelagem do corpus científico de uma determinada comunidade em uma “sólida rede de compromissos ou adesões – conceituais, teóricas, metodológicas e instrumentais” (KUHN, 1970, p. 66) constituiria a fonte principal da metáfora que proporcionaria, ao praticante de uma especialidade amadurecida, as regras que revelariam a natureza do mundo e de sua ciência, permitindo-lhe concentrar-se nos problemas esotéricos definidos por tais regras. Imbricado a este sentido de paradigma, o progresso científico para Kuhn seria mais bem explicado pelo seu conceito de incomensurabilidade. Assim, as teorias não se evoluem gradualmente, por processo de acumulação, mas surgem como resultado de uma reformulação revolucionária da tradição científica anterior. O status de paradigma somente é considerado e validado quando a nova teoria científica alternativa substitui completamente o seu antecessor. Entretanto, dentro do novo paradigma pode haver incorporação de uma parte do vocabulário e dos aparatos conceituais do paradigma tradicional, mas estabelecendo novas relações entre si.
Apesar das polêmicas levantadas por Kuhn eu sua principal obra, “A estrutura das revoluções científicas”, com uma explicação do progresso da ciência fundamentada em uma lógica imanente que confere a ciência o poder de desenvolvimento, é inegável a sua contribuição conceitual de paradigma. Contudo, as condições sociais de produção da verdade científica que são determinadas e estruturadas, simultaneamente, em conflitos epistemológicos e políticos, foram objetos dos estudos sociológicos de Bourdieu (1983).
A constituição de um campo científico para Bourdieu é semelhante ao campo social, com relações de força e monopólios. A produção do conhecimento se dá em um espaço de jogo de uma luta concorrencial pelo monopólio da autoridade científica, definida como capacidade técnica e poder social, uma representação social e do poder simbólico associada a uma determinada disciplina. Ou seja, o campo científico é um lugar de luta política pela dominação científica, se constituindo mediante de estratégias políticas de dominação. Deste modo, os agentes devem engajar-se para impor o valor de seus produtos e de sua própria autoridade na limitação do campo dos problemas, dos métodos e das teorias que são de acordo com seus interesses. As aspirações ou ambições científicas dos agentes de um dado campo científico – as disciplinas – estão na acumulação do capital científico que ocorre no interior da hierarquia social dos campos científicos que orienta as próprias práticas desses agentes em uma luta inseparavelmente científica e política.
Se considerarmos a categoria epistemológica de paradigma como um “instrumento de abstração, uma ‘ferramenta’ auxiliar para o pensamento sistemático da ciência” que possui elementos intraparadigmáticos fundamentados em pressupostos filosóficos, ideológicos e praxiológicos; e os estudos sociológicos do conhecimento de Bourdieu que demonstra a ordem do campo científico estabelecida através da luta pelo monopólio da competência científica mediante estratégias políticas de dominação, como poderemos fundamentar os pressupostos básicos do marco conceitual que trata a saúde coletiva como ‘campo científico interdisciplinar’ aberto a novos paradigmas? Se os campos científicos e seus paradigmas, melhor, se os agentes históricos, condutores e conduzidos por suas práticas científicas, organizados em espaços institucionais da ciência, em ‘comunidades científicas’ com matrizes de pensamento específicos, no que tange a sua linguagem, signos, significados e ferramentas analíticas de pesquisa, como construir um campo científico interdisciplinar? As relações interdisciplinares entre as diversas disciplinas tendem mais ao conflito do que ao diálogo construtivista.
Em concordância com a vertente crítica e pragmática de Almeida Filho (1997) sobre os aspectos lógicos epistemológicos do esquema de Jantsch-Vasconcelos-Bibeau das definições dos correlatos de disciplinaridade (multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade, metadisciplinaridade, transdisciplinaridade) para uma proposta de definição da transdisciplinaridade, a compreensão dos sistemas-sociais-complexos-dinâmicos não se dará, com eficiência e eficácia, a partir do diálogo entre campos disciplinares, mas entre o trânsito dos sujeitos dos discursos em campos do conhecimento diversos. A ciência é uma instituição imaginária que se constitui na prática social e histórica dos diversos sujeitos sociais.
As fronteiras disciplinares já não são mais como foram construídas, de modo delimitado e fechado. A configuração dos fenômenos da vida, como, por exemplo, os integrais de saúde-enfermidade-cuidado são inerentemente complexos, não são capazes de serem apreendidos por campos científicos disciplinares. Entretanto, a sua compreensão deve ser possibilitada por uma lógica múltipla e plural, por ‘operadores transdisciplinares da ciência’ que serão formados não em campos científicos restritos às disciplinas, mas em etapas cíclicas de formação, de ‘treinamento-socialização-enculturação’ em distintos campos do saber.
Todavia, ainda na perspectiva de Bourdieu (1983), a ordem do campo científico se estabelece na luta entre os dominantes e os pretendentes (os novatos), que recorrem a estratégias antagônicas profundamente opostas em sua lógica e no seu princípio. Ainda assim, a ordem científica não se reduz à ciência oficial e no estado incorporado sob a forma de hábitos científicos, sistemas de esquemas geradores de percepção, de apreciação e de ação, produto de uma ação pedagógica específica que guia a escolha dos objetos, a solução dos problemas e a avaliação das soluções. A ordem científica, além disto, contempla o conjunto das instituições ou sistemas de ensino que assegura à ciência oficial a permanência e a consagração, inculcando sistematicamente habitus científicos aos destinatários legítimos da ação pedagógica, mas especificamente, aos novatos do campo da produção do conhecimento científico.
Cabe neste momento nos questionarmos: Tendo em vista a estrutura da ordem do campo científico, como possibilitar uma formação epistêmica transdisciplinar em um sistema de ensino que tradicionalmente foi engendrado para manter a ordem estabelecida com uma ação pedagógica disciplinar, mecanicista e instrumental? Estará a Saúde Coletiva pleiteando instituir um sistema de ensino de etapas cíclicas de formação transdisciplinar, de ‘treinamento-socialização-enculturação em distintos campos do saber que possibilite os novatos do campo da produção científica apreender, através de uma lógica múltipla e plural, a complexidade da produção social-histórica, e também biológica, dos integrais de saúde-enfermidade-cuidado por meio de uma ação pedagógica emancipatória? Será que o campo científico, como bem explicita Bourdieu, permanecerá em luta constante pela acumulação do capital científico, pelo monopólio da competência científica para exercer a dominação ideológica? Ou terá como utopia uma ciência contemporânea engendrada por sujeitos sociais transdisciplinares organizados em comunidades de diálogo hibridizadas e “hibridizadoras”? Qual deverá ser a pauta da definição da hierárquia social dos campos científicos contemporâneos? Tem se fundamentado e pretende se fundamentar na hierarquia dos problemas de uma realidade social concreta injusta e iníqua ou em métodos científicos tradicionais e disciplinares?

Referências bibliográficas:

ALMEIDA-FILHO N. Transdisciplinaridade e Saúde Coletiva. Ciência & Saúde Coletiva. 2(1/2):5-20, 1997.
ALMEIDA-FILHO, N. Complejidad y transdisciplinariedad en el campo de La salud colectiva: evaluación de conceptos y aplicaciones. Salud Colectiva, Buenos Aires, 2(2): 123-146, Mayo - Agosto, 2006
BOURDIEU, P. O campo científico. In: Ortiz, R. org. Pierre Bourdieu. São Paulo, Ática, 1983.Cap.4.p.122-55. (Coletânea Grandes Cientistas Sociais, 39).
PAIM, J. S.; ALMEIDA-FILHO, N. Saúde coletiva: “nova saúde pública” ou campo aberto a novos paradigmas? In: Rev. Saúde Pública, 32 (4): 299-316, 1998.
KUHN, T. A estrutura das revoluções científicas. 9 ed. Trad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Perspectiva, 2007.
João Marcos dos Santos Santana.
Estudante de Bacharelado Interdisciplinar em Saúde da UFBA.